quarta-feira, abril 13, 2005

LAURA


Da experiência missionária que vivi em Canárias disse que muito mais havia para contar e, então, porque as saudades desse intenso mês já se vão fazendo sentir, hoje decidi escrever sobre algo que me marcou e que sucedeu durante esses dias: Laura!

Um dos grupos que existem na Paróquia de S. João Bosco, no “Valle de Jinámar”, é o de S. Francisco de Assis. Uma das actividades desse grupo é a distribuição de metadona e a tentativa de reinserção social dos toxicodependentes.
No último sábado em que aí estivemos resolvemos (os Padres Pablo, Stanislaw, e Alexis Viera e eu) aceitar o convite que nos havia sido feito pela irmã que aí trabalha, visitar as instalações e ver o seu trabalho “ao vivo”.
O que vimos não só nos agradou como levou a que nos sentíssemos acolhidos. É óbvio que se trata de pessoas com histórias de vida muito complicadas, como aliás todas as pessoas que em dado momento se viram enfeitiçadas pela toxicodependencia, porém, e quando entrámos, o que vimos foi um grupo de pessoas em animada conversação, tomando o seu café e umas bolachas e alguns, até, jogando às cartas. Aí, imediatamente, constatámos que ali todos se sentiam bem.
Como todos entenderão, a nossa intenção ali não era fazer pregações; o que fizémos foi juntar-nos ao grupo. Tomámos o nosso café, fumámos o nosso cigarro (excepto o P. Pablo que se afirma um “fumador não praticante”, se bem que ninguém saiba muito bem o que isso é...) e até nos juntámos aos que jogavam às cartas.
Foi uma manhã muito bem passada e em que admirámos o trabalho cristão que ali com aquela gente se faz e ao qual o Pároco (P. Ricardo, um sacerdote da CM) se junta sempre que pode... que exemplo!!!

Agora todos estarão perguntando: “E que tem o nome Laura que ver com tudo isto???”
Eu respondo: “Calma!!!” (Ai os direitos de autor...)

Passo a explicar:
Quando nos sentámos para jogar um pouco às cartas, tomar o nosso café e fumar o nosso cigarro, foi-me apresentada uma senhora que estava à minha frente. O seu nome era Laura. Nesse momento só vi que Laura era uma mulher na casa dos 40, um pouco diferente, mas cuja diferença pensei que se devesse ao facto de ser uma ex-toxicodependente.
Começámos o jogo de cartas...
A jogar estávamos o P. Alexis Viera, Laura, duas monitoras e eu.
Quando estamos a jogar às cartas é normal que olhemos para as mãos dos outros quando pousam a carta que jogam. Foi precisamente o que aconteceu comigo quando Laura pousou a primeira carta.
Nesse momento pensei: “Meu Deus! Que mãos mais masculinas que esta mulher tem!!!”
Continuámos o jogo mas eu comecei a ficar intrigado... e o Alexis também...
Olhei para ver melhor... vejo como os braços de Laura eram muito peludos... olhei melhor... vejo como Laura é bem larga de ombros... nesse momento vejo que o Alexis está a pensar o mesmo que eu: “Laura é (ou foi) um homem!!!”
(Bem, depois viémos a descubrir que Laura é, na realidade, Carmelo! Que se note que, aqui em Espanha, Carmelo é nome de homem...)
Mas entretanto, quando ainda estávamos só no campo da suspeita, fomos ouvindo o que nos contava sobre a sua vida... disso só digo que, sendo verdade, Laura teve uma vida de imenso sofrimento fisico e moral, o qual não descrevo por respeito a Laura e à sua privacidade, além do que não é fundamental para a questão...
Quando nos despedimos de Laura, como é natural entre um homem e uma mulher, fizé-mo-lo com dois beijos na cara. E, sabem uma coisa? Não senti repulsa, vergonha, ou o que seja... afinal, à minha frente estava uma mulher, bem estranha, mas “mulher”...
E não fica o caso por aqui...
Na missa de Envio, e porque havia sido convidada, aí estava Laura (e na primeira fila)... e, se querem saber, fiquei encantado ao ver como todos os que a conheciam do «S. Francisco de Assis» a acolheram...
Afinal, o que fez Jesus durante toda a sua vida senão acolher a todos???

Nuno Miguel Lopes, c.m.

NOTAS:
1 – Como é óbvio, aqui não estou a fazer qualquer tipo de defesa da homossexualidade, transexualidade, ou o que seja... só estou a olhar à pessoa sem fazer qualquer consideração moral quanto ao seu desvio na vivência da sua sexualidade... Esse pode ser tema de um próximo artigo... quem sabe???
2 – Este artigo foi escrito há três semanas em Zaragoza, durante os exercícios espirituais. Andou perdido entre os meus papeis... mas finalmente vê “a luz do dia”. Creio que se mantém actual... oxalá não me engane!!!

1 comentário:

Anónimo disse...

Pelo que conheço de Jesus, este era uma pessoa que não discriminava o seu próximo, penso que é este pensamento que devemos seguir bem como Igreja, e, ainda bem que os mais novos seguidores da Igreja começam a pensar mais como Jesus! Ninguém deve ser discriminado, mas sim deverá dar-se uma segunda oportunidade, porque todos nós somos pecadores! Segue em frente, olha para trás, mas podes ter a certeza que o teu futuro será promissor junto dos que mais necessitam!