Porque não tenho qualquer tipo de prazer em deixar os nossos leitores assaltados pela curiosidade sobre o que se passou nas terceira e quarta semanas da nossa estadia em Canárias, aqui estou disposto a partilhar, sempre de forma fragmentária e incompleta, um pouco mais das nossas vivências e experiências missionárias...
Nessas duas semanas, estando já a equipe formada (ver artigo de 16/03/2005), o nosso trabalho consistiu em, conjuntamente com a Paróquia de San Juan Bosco (Valle de Jinámar), preparar a missão que irá realizar-se nos seus territórios de Eucaliptus 1, Los Helechos e Las Violetas, no final deste ano (Outubro ou Novembro). Pode parecer estranho que a missão se realize só nestas zonas, mas é uma situação bastante compreensível devido à extensão dos seus territórios, que se têm vindo a missionar desde 1995.
Essa paróquia, bastante jovem, é uma zona excessivamente povoada. É também uma zona de habitação social, onde encontramos gente vinda do (antes espanhol) Saara, gente vitima das mais variadas pobrezas e também gente que aí comprou a sua casa. As construções primam pela altura, habitando em cada bloco uma média de 40/48 famílias (em Eucaliptus 1). A nivel social é uma zona bastante conflitiva e carenciada. Aí estão patentes os problemas com a toxicodependência, com a prostituição, com as familias desagregadas, com a pobreza. É de louvar, no entanto, o trabalho da paróquia na área da acção social (Cáritas, “S. Francisco de Assis” para os toxicodependentes e “Media Luna” para as crianças)... podemos dizer que é uma paróquia verdadeiramente vicentina!!!
Todas as manhãs (excepto sexta-feiras), o nosso dia missionário começava com a oração da manhã na e com a paróquia, à qual se seguia a celebração da Eucaristia. Depois, tomado o café que na paróquia gentilmente nos ofereciam, reunía a equipe para preparar o trabalho do dia. O resto da manhã era passado a visitar os territórios a missionar. Nessas visitas, o nosso propósito era, contactando com as pessoas que já tinham algum tipo de contacto com a paróquia (catequistas, membros de grupos paroquiais, pais de crianças na catequese e outros), convidá-las a participar nos encontros de reflexão a realizar na segunda semana e encontrar “enlaces” em cada bloco. (Aqui vejo a necessidade de fazer uma pequena explicação: a missão vicentina na Provincia de Zaragoza começa, na(s) primeira(s) semana(s), por fazer visitas a todas as familias do território a missionar, nas quais se apresenta a missão e se convida à participação na mesma. Os “enlaces” são as pessoas que, em cada bloco, fazem um trabalho prévio de anúncio dessa visita dos missionários, e que servem de contacto entre a paróquia e os residentes nesse bloco). Na manhãs da segunda semana o trabalho era o mesmo, sendo porém alvo diferente: os visitados eram os doentes da paróquia e suas familias.
Pelas tardes o nosso trabalho era mais variado...
Assim, na primeira semana, todas as tardes mantivemos uma hora de encontro com as crianças da paróquia (e que crianças!!!). Eram mais de 100 crianças e cada uma mais irrequieta que a outra, mas todas encantadoras... foi cansativo estar com esses pequeninos mas todos chegámos ao ultimo dia com a agradável sensação de que valeu a pena.
Além dos encontros com as crianças, mantivémos encontros com os seus pais, os adolescentes, os jovens, os catequistas e com os diversos grupos da paróquia (Conselho Pastoral, Cáritas, Catequese de Adultos, ...). O objectivo de todos esses encontros era, para além de os animar nos seus trabalhos, de os entusiasmar e envolver na missão.
Na última semana, e como tempo especial, todas as tardes se realizou um encontro de reflexão e oração, cujo objectivo era a descoberta da vivência comunitária da fé e como essa vivência impele para a missão.
Foram duas semanas muito bem passadas... O ambiente na equipe missionária não podia ser melhor... a receptividade por parte da paróquia também... enfim, se assim foi a preparação, nem quero imaginar como será a missão!!!
Como ponto final neste tempo especial de preparação da missão, no último sábado, e numa celebração muito participada e vivida, foi enviada toda a paróquia em missão. A nós foram entregues “pintaderas” (tipicas de Gran Canária) e o diploma missionário.
Ass: Nuno Miguel Lopes
(Foi para mim muito importante a participação neste trabalho de missão não só por poder sentir uma vez mais que estou a trilhar o caminho certo mas também por verificar que a lingua espanhola já não é assim tão difícil para mim... desde ter que a usar com desconhecidos, para presidir a orações, para fazer catequese, enfim, em todas as actividades normais numa missão...)
Deste tempo de missão muito mais haveria para contar (peripécias, descobertas, frustrações, ...), mas por agora fico por aqui, não quero que o tamanho do artigo assuste aos nossos leitores... e, mais tarde, quem sabe se escreverei mais sobre o assunto!??!