Este dia, 6 de Novembro, foi um dia especial para nós seminaristas e ainda mais para os nossos amigos do psiquiátrico "El Pinar", onde todos os sabados fazemos voluntariado. Estava agendado para hoje uma competiçao a nível de todo o território aragonês para pessoas deficientes, na cidade (creio) de Andorra. À partida, 8 da manha, todos estavam bem dispostos e prontos para ganhar muitas medalhas. Quase duas horas de viagem foi o que demoramos para chegar ao nosso destino; cheguei esgotado e alguns deles também, nomeadamente, o Fernando, que já dizia que nao devia estar ali e sim em casa, que o pai nao o veio ver e que as sapatilhas nao eram dele: todo o caminho a dizer o mesmo... Para mais, numa das contagens, para ver se estavam todos, eu também fui contado como um paciente; o pior é que já nao é a primeira vez... Bom, mas sigamos com o narrar dos acontecimentos principais. Mal chegámos, comemos algo e fomos a um café próximo para fazermos, também, as nossas necessidades; entretanto, o Fernando estava, agora, muito afectivo: abraçava e beijava a todos nós, seminaristas; o mais hilariante foi o que se passou com o Nuno, com o Nacho a dizer ao Fernando para dar um abraço bem forte porque o Nuno merecia; o pior é que ele tinha mesmo força e os seus abraços tornavam-se insuportáveis...
Devo dizer que me surpreendeu o facto de eles se conhecerem entre si; incluso, descubrimos que uma delas tinha um noivo o qual nos apresentou (a "minha" Glória, nao que eu concorde com este pronome possessivo, mas se nao os podes vencer, junta-te a eles...) .
Seguiu-se a primeira prova de corrida e, com ela, o nosso primeiro campeao do "El Pinar"; resultado: último lugar...(Aqui, abro um parentesis para dizer que o nosso grupo era o pior, ou seja, em comparaçao com todos os outros participantes, os do "El Pinar" tinham metade das suas capacidades, ou por aí perto). Mas as coisas iam melhorar, dentro dos possíveis, claro. Seguiram-se outros nossos pupilos do "El Pinar" e o melhor que conseguimos foram dois quartos lugares; a um deles, foi-lhe prometido que, se ganhasse, receberia um cigarro de presente; o que é certo é que pouco faltou e, mesmo assim, teve o cigarro como recompensa; é que os nossos atletas, todos eles, ou quase todos, fumavam; um deles até queria ir fazer o aquecimento de cigarro na boca, mas nao lho permitimos, desporto é desporto. Pelo meio, perdiamos o rasto a alguns, que nos escapavam; numa modalidade, que nao o desporto, mas sim a dança, nós éramos os campeoes; acontece que a acompanhar todo o concurso tivemos música e da pesada; de maneira que alguns, como foi o caso do Fernando, se pôs a disfrutar ao máximo, dançando como só ele sabe...
Terminado o concurso e com um resultado que podemos considerar razoável, ou mesmo bom, seguiu-se o almoço. Aqui, confesso que deveriamos ter tido um pouco mais de atençao e ficarmos espalhados pela mesa para os ajudar a comer e a comportar-se como deve ser, mas assim nao aconteceu; para a próxima teremos de melhorar este aspecto. Eis que, quando nos damos conta, faltava um deles, o Lázaro; estava tudo bem com ele: tinha-se sentado nao sei bem onde, mas longe da sua mesa e do nosso grupo e nao estava a passar mal sem nós; quando chegou já tinha um pao carcomido e partido em tres pedaços; assim é que é, nao há tempo a perder... Escusado é dizer que o apetite era grande, mas para alguns de nós, estava a ser difícil digerir a comida; a razao é que, pouco depois de começar, a mesa estava um caos e cada um deles a comer de formas e jeitos que nunca antes haviamos visto. Havia quem enchesse a boca de comida e depois nao a conseguisse engolir; esfomeados ou golosos a pegar no prato e mete-lo à boca para que nao sobrasse nada; tampas de iogurte coladas nas camisolas; bolsos cheios de pao para comer durante o dia; ou seja, uma verdadeira festa, sem dúvida.
Depois do almoço, agradecimentos e entrega de lembranças do encontro aos vários grupos participantes, seguiu-se o momento da dança onde todos disfrutaram da forma como melhor puderam. Mas, mais revelaçoes surpreendentes: uma delas, do "El Pinar", tinha algo na boca, já passava quase uma hora depois do término do almoço; o que era? um osso ou pedaço de carne, nao sei bem, que logo lhe dissemos para cuspir para fora. Entretanto, o Nuno chegou-se à minha beira e disse-me: "Bruno, va lá, ensina-a a mastigar!"... Outro deles, que tinha passado o almoço a recolher pao para os bolsos, a cada passo ia ao bolso e metia um pedaço de pao à boca; ao que parece, estava de dieta, mas como se apanhou longe de casa e do médico que o acompanha, comeu o mais que pôde.
A noite já estava caindo e chegou a hora bendita de voltarmos a casa. Na viagem de regresso correu tudo bem, àparte de um incidente em que um deles se mijou no autocarro; ninguém estava à espera que tal acontecesse e eu tive culpas, pois sabia que ele queria fazê-lo e, como estavamos próximos de casa, nao foi dito ao motorista para parar o autocarro; enfim, um infeliz incidente que fica para se aprender a liçao para que para a próxima nao aconteça... À parte isto, a viagem terminou bem, com todos cansados com o dia estafante e cheio de peripécias. Posto isto, ainda se seguiria uma prova muito perigosa: era eu a conduzir a carrinha para nos trazer de regresso de "El Pinar" para casa... felizmente tudo correu bem; apenas se sobressaíram umas mudanças metidas à martelada e umas reduçoes um pouco atribuladas, mas nada de mais...
E assim foi este dia cansativo, mas muito enriquecedor para todos nós; para a próxima saída as coisas vao melhorar e organizar-se melhor!...
ASS: Bruno