terça-feira, novembro 02, 2004

MARIAZINHA

No dia em que a Igreja faz memória dos fieis defuntos, para os quais acreditamos e confiamos que a ressurreição em Cristo foi, é e será um facto, quero lembrar uma mulher que, em momentos muito importantes da minha vida, foi presença de Deus para mim. Essa mulher, não o sabendo, foi e é sinal de Deus que me chama, foi a voz de Deus que me convidava (e convida) a segui-l’O por um caminho que se não adivinhava fácil, e o qual me recusei a admitir até aos 22 anos, mas que me poderá conduzir à realização total enquanto pessoa e enquanto cristão.
Essa mulher esteve presente na minha vida desde o meu nascimento e foi quem me encaminhou nos meus primeiros passos da fé. O seu rosto suave e macio, com uns lindos e transparentes olhos azuis ou cinzentos (conforme os dias e o tempo), o seu suave cabelo branco, nem sempre muito bem penteado mas sempre brilhante como neve, as peles dos seus braços caídas e que me encantavam pela sua suavidade, o seu belo sorriso, tão malandro como sincero, são só alguns pormenores que dela guardo, e guardarei para sempre, na minha memória. Era a minha Mariazinha, a minha “Visa”, a minha bisavó.
Na minha memória estão gravadas as manhãs/madrugadas frias de Inverno em que entrava na sua cama quentinha e acolhedora, depois de ter sido tirado do conforto do “ninho” pela minha mãe que tinha que ir trabalhar para os campos e que por isso me ia colocar ao cuidado da sua avó. Nessa cama fofinha e quente ficava umas duas horas, mas eram duas horas maravilhosas. Nesse tempo dava tempo para dormir, mas também para algo que me encantava, para aprender bonitas e antigas orações, que a minha Maria ia buscando e rebuscando na sua memória de mulher analfabeta.
Na minha memória estão também os fins de tarde de um qualquer dia de semana em que a acompanhava para a eucaristia. Ninguém mais estava disponível, e eu até gostava de a acompanhar. Nessa altura sentia-me encantado ao ver o P. João a celebrar, e a minha avó dava-me a hipótese de o ver nessa actividade mais um dia além do domingo. Já então eu sentia o chamamento de Deus, mas faltava-me a coragem e a oportunidade para o assumir…
Na minha memória ficou e ficará para sempre registado, também, aquela tarde de primavera, no dia 31 de Março, era eu um adolescente com 17 anos, em que ouvi o seu último suspiro, em que a senti abandonar o seu velho e cansado corpo, em que sentado a seu lado na cama senti a paz da sua despedida desta sua passagem por este mundo.
Mas agora acredito e espero que a minha Maria está na felicidade eterna junto de Deus e de Maria (a quem ela rezava tantos e contínuos Terços) intercedendo por mim e pela minha caminhada vocacional. Afinal a semente da minha vocação foi abundantemente regada por ela na sua vida terrena, só é de esperar que a continue regando na sua vida eterna.

Obrigado Senhor por na minha vida teres colocado a minha bisavó e Tua serva Maria! Ela, que foi para mim Tua presença e voz, esteja agora incluída no número dos incontáveis que gozam o prémio da ressurreição! Ámen!
Ass: Nuno Miguel Lopes

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