Hoje, pela manhã, recebi a notícia, infelizmente cada vez mais usual no nosso mundo, de uma idosa que vive em condições pouco dignas e a quem a Segurança Social Portuguesa se nega a prestar apoio.
Aqui está o caso exposto por quem o vive de perto:
«Somos um Centro de Dia, com 5 anos de funcionamento, sedeado em Paialvo e por onde já muitos idosos passaram, alguns ainda se mantêm, outros já faleceram e outros estão cada vez mais dependentes, mais necessitados de apoio permanente.
Das muitas situações difíceis com que já nos deparámos, e relembrando algumas: dois irmãos invisuais, que moravam sozinhos sem as mínimas condições habitacionais: um morreu no hospital, o outro morreu de desgosto por no fim da sua vida se ver longe (Centro de Emergência de Santarém) do sitio a que estava habituado – a sua casa e o Centro de Dia.
Também no Apoio Domiciliário, não são menores as dificuldades, porque quando as situações se complicam, quem tem dinheiro ou família para pagar um Lar privado, tem os seus problemas resolvidos! Mas para quem não tem família, mora sozinha num 1º andar, de renda, acamada, com uma reforma de cerca de 350,00€, não há Lar Privado e nem da Segurança Social que a aceite!!! Esta senhora, vive dos cuidados já insuficientes que este Centro lhe presta.
Claro que tudo isto se resolveria se já tivéssemos aqui um Lar, mas infelizmente, a burocracia é mais que muita, existe muito dinheiro para muita coisa, mas para um Lar Social, até parece uma Utopia!!! E os outros Lares, ditos Sociais, também não têm lugar para uma pessoa que aufere mensalmente 350€. E se fosse 700, será que já haveria lugar para esta senhora???
Talvez este assunto dê para reflectir acerca do país em que vivemos... das injustiças sociais que diariamente aparecem nos meios de comunicação e das que ainda estão camufladas! Num país cada vez mais idoso, talvez já seja altura de serem criadas condições para que os nossos avós vivam no conforto de um Lar, que apesar de não ser o seu, nem da sua família, é da sua área de residência de forma a lhes dar o carinho e as condições de que necessitam.
Ass. Élia Lopes & Manuela Godinho (Centro Social Paroquial N.ª Sr.ª Conceição Freg. Paialvo)»
Que o Estado tenha querido e queira ter em suas mãos o trabalho sócio-caritativo, historicamente desenvolvido pela Igreja, não vejo problemas. Afinal só está a cumprir a sua função… Agora que preste esses serviços a seu bel-prazer e não o preste a quem deles necessita urgentemente, creio ser uma hipocrisia e uma falta grave contra a humanidade.
Como pode o Estado, e mesmo misericórdias (que tem o mesmo sistema de funcionamento), recusar-se a prestar o apoio a pessoas a quem a sorte da vida não sorriu nunca e não tem os meios suficientes para pagar o pedido por estas instituições pseudo-caritativas ou solidárias?
Como podem os dirigentes destas instituições dormir de noite?
Bem sei que não é fácil, e também sei que estas minhas questões são exageradas… mas revolta a impotência perante esta situação…
Como dizem a Élia e a Manuela, pelo menos que o Estado fosse mais pronto em conceder o apoio para a construção do Lar… afinal, gasta-se tanto e tão mal gasto… mas talvez a construção deste Lar em Paialvo não tenha proveitos políticos!!!
Que mundo este em que vivemos!!!
Ass: Nuno Miguel Lopes
Nota: Para os que não sabem, antes de entrar no seminário trabalhava no Centro de Dia referido. Foi ali que a minha decisão foi amadurecida, e foi na relação com todas aquelas pessoas, idosos e colegas, que vivi num clima extremamente propício para o meu discernimento vocacional. Tudo o que se relaciona com o Centro, como creio que compreendem, me é muito querido, e os seus problemas são também os meus… Aquele ainda é o «meu Centro, os meus idosos, as minhas colegas,…», por isso o meu interesse neste caso.
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