domingo, dezembro 05, 2004

CONCEPÇÕES…


Todos os que me conhecem bem sabem que não consigo resistir a uma boa polémica, e, nos últimos dias, em função do meu último artigo, neste blog, que nunca tinha recebido tantos comentários a uma só publicação, tem reinado a polémica. Muito me agrada esse facto, sinal de que o que aqui se escreve não é indiferente a quem o lê.
Se o iniciador da polémica fui eu, ao escrever o artigo, o seu digno alimentador tem sido o «meu amigo» F.S., ao tão fervorosamente comentar. É certo que as reacções ao(s) seu(s) comentário(s) não têm sido as mais serenas, mesmo da minha parte, mas creio chegada a altura de tentar colocar «água na fervura» e ensaiar esclarecer as coisas um pouco:
Confesso, e mentiria se o não fizesse, que o primeiro comentário do F.S. me deixou um pouco perturbado, quer pela surpresa quer pelo tom. Porém, e depois da “roda-viva” de comentários que foram surgindo, quero agradecer o interesse e a participação de todos nesta página que elo de ligação com Portugal e o mundo pretende ser.
Porque, no meu entender, a polémica se deve a uma divergência de concepções, quero apresentar algumas que creio poderem ajudar ao esclarecimento da minha posição:
O Homem é para mim um ser em relação e só se pode entender e definir em função dela. Toda a humanidade é, assim, um corpo relacional. Como em todos os corpos, basta ver o nosso, se um membro sofre todos sofrem por compaixão (na verdadeira acepção do termo: Sofrer com). Todos esses membros são abrangidos pela corresponsabilidade de trabalhar para o bem comum. Assim, se há homens, perto ou longe, isso não importa, que sofrem, não posso, nem devo, comportar-me como se isso não fosse problema meu, ou então limitar-me a constata-lo sem sentir a urgência de passar à acção.
O flagelo da SIDA, repito, deve impelir-nos á acção.
Como em relação a todos os males, a acção, neste caso, deve ter uma dupla vertente: de prevenção e de tratamento, e uma sem a outra estão sempre condenadas ao fracasso a médio-longo prazo.
A prevenção, no caso da SIDA, não pode reduzir-se a uma mera distribuição de preservativos. É certo que é, reconhecidamente, um dos melhores meios de prevenção, mas, porém, não é o único!
A Igreja, porque não vai atrás de modas, tem o dever ser lugar de salvação para os seus membros e para toda a humanidade, a quem ama e serve. Não pode, assim, irresponsavelmente, vir dizer que aprova o uso do preservativo. Porquê?
A união sexual entre um homem e uma mulher só pode ser entendida como sinal e expressão do amor que entre os dois existe e vai crescendo. Porque o amor não é instantâneo mas progressivo, a relação sexual só pode surgir como fruto da mútua confiança adquirida. Terá sentido neste caso o uso do preservativo como prevenção contra a SIDA?
Ao serem distribuídos preservativos às camadas mais jovens da sociedade como se de rebuçados se tratásse, no meu entender, está-se a «educar» o futuro da humanidade a seguir o caminho da irresponsabilidade sexual e esse caminho nunca poderá ser o defendido pela Igreja.
Que outros caminhos há então para prevenção da SIDA? Principalmente um: a educação para a vivência de uma sexualidade responsável.
No entanto, e porque do geral ao particular vai uma grande distância, há casos em que, sem hesitar, eu sou o primeiro a apontar o uso do preservativo como recurso, principalmente em contextos culturais de poligamia e/ou de constante troca de parceiros sexuais e, claro, no caso daqueles que não partilham da minha visão sobre a sexualidade…
Falando agora dos meios de tratamento, deparamos com a maior das injustiças: o monopólio das grandes farmacêuticas que impede os afectados dos países mais pobres de ter acesso aos tratamentos actualmente existentes. E essa, ninguém me diga que não, é um grande exemplo das hipocrisias do mundo ocidental!!!
Não posso deixar de terminar sem esclarecer um último ponto: quando me referia aos ocidentais obviamente que o fazia no geral e não no particular. Assim, e porque fui muito mal interpretado, quero dar o meu público louvor a todos aqueles que da sua vida fazem uma desinteressada entrega em favor dos que sofrem com o flagelo da SIDA. Bem hajam!
Muito ficará por esclarecer, mas não se pode esgotar uma fonte, pois não???

Ass: Nuno Miguel Lopes

PS1 – Caro F.S., tens que reler o meu comentário ao teu comentário. O sentido de «os ocidentais menos um: tu» creio que é claro: surge por respeito à tua auto-exclusão do grupo dos ocidentais que eu apelido de hipócritas… restam dúvidas??? Coloca-as, que prontamente tentarei esclarece-las.

PS2 - «Amigo F.S.», se essa for a tua vontade, com todo o gosto continuarei a debater este assunto contigo. Aqui tens o meu contacto:
nunomiguelopes@hotmail.com...

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá, Nuno
O problema da sida é um problema muitíssimo grave e muitíiiiiiiiiiiiissimo complexo, em todas as suas vertentes. Acho super positivo que estejas interessado em aprofundar. Não seria de esperar outra coisa dum vicentino.
Desculpa lá, mas o teu texto é demasiado simplista. A Igreja tem uma "utopia" que, a meu ver, deve continuar a defender com todas as forças. Por outro lado, há também o realismo, por exemplo, da ASSOCIAÇÃO ABRAÇO, aqui em Portugal, realismo que é defendido por muitos bispos, padres e cristãos comprometidos, até na linha do princípio do mal menor. De qualquer maneira, a tragédia é tal que não nos podemos dividir por questões de princípio. Devemos evitar fazer juizos, por exemplo, chamar hipócrita à sociedade ocidental. Isto não leva a nada. Todos somos poucos para combater a sida...
Continuaremos o diálogo, quando nos encontrarmos, está bem?
Um abraço e FELIZ NATAL. Também para o Bruno!
P. Avelino

Anónimo disse...

Gostei da mudança de tom do seminarista Nuno. Sinto q alcancei um dos objectivos ao intervir por vez primeira: pedir moderação e sugerir que não se entrasse pelo caminho do insulto generalizado e gratuito. Gostei tb q me tratasses como amigo, já q ñ queria ser visto como um inimigo (para ser mais preciso, inimiga) invisível. Aos teus colaboradores desejo muita paz... E sobre o q escreves, apenas duas notas:
1. a vossa posição é respeitável, mas não pode nem deve ser imposta aos «não cristãos». Mesmo entre os crentes sabes q nestas matérias as posições da Instituição geram angustiantes dúvidas... talvez a Igreja, que é governada por celibatários, ñ devesse dar tanta opinião sobre matéria sexual, ñ te parece? Por outro lado, lamento q a Igreja insista em pequenas coisas (preservativos...) e se esqueça das grandes causas que afligem a sociedade: a crescente desigualdade social, a corrupção, etc... porque é que não sugere modelos “políticos” alternativos? pensa nisso...
2. Apesar de ñ concordar plenamente, confesso q gostei do teu texto. Revelas una grande capacidade pelo q outra vez te digo (sinceramente): vais longe. Espero mesmo q seja longa e profunda a tua caminhada...
beijinhos da F.S.

Anónimo disse...

Caro Nuno

Não é senão de louvar o teu fulgor em combater esse flagelo que assola a Humanidade há um par de décadas que é a SIDA. Não é também senão de louvar as tuas fortes convicções, as quais partilho por inteiro. No entanto, parece-me que incorres em uma ou duas confusões, na minha modesta opinião, que tentarei deslindar sistematicamente:

1. Existe um hábito generalizado, muitíssimo enraízado na nossa cultura e provavelmente nas outras, de atribuir à SIDA características que não lhe são atribuíveis. A SIDA é antes demais uma doença, um vírus, que como organismo vivo tenta desesperadamente prolongar a sua existência no contágio de novos hospedeiros. Como tal, este contágio extravasa qualquer mera concepção comportamental que se possa ter do problema. As transfusões sanguíneas de toda a ordem são as responsáveis pelo problema, não só as que resultam exclusivamente do acto sexual. Erradique-se portanto e para já, essa noção meramente comportamental do problema, como se bastasse vivermos segundo certas normas morais para nos imiscuírmos de contrair toda e qualquer doença.

2. Parece-me ser a pior maneira possível de educação para a sexualidade fazê-lo na base do terror por uma qualquer doença. Primeiro, porque essa educação pereceria facilmente com a utilização do preservativo, ou seja, uma vez prevenida a hipótese da doença, tudo seria permitido. Ora é precisamente contra isso que te manifestas. Segundo, porque o objectivo dessa educação, como de qualquer outra em qualquer outra vertente, deve ser o de deixar as sementes do caminho para a felicidade que serão mais tarde aproveitadas ou não pela pessoa. Ou seja, e aqui a Igreja como um todo tem falhado em passar a mensagem ao longo da História, é preciso centrar-mo-nos na noção de que a via que propomos para a sexualidade é a via que, na experiência secular da Igreja e segundo os mandamentos de Deus, conduz antes de mais nada à felicidade. A educação deve propor na sua globalidade um caminho para a felicidade e é sempre esta óptica que deve estar presente. É esta a intenção do nosso próprio Deus Pai ao propor-nos o caminho, e ainda que muitas vezes este objectivo último tenha que ser relegado para segundo plano em discurso para uma maior eficácia do acto educativo, é preciso nunca deixar de ter presente e de fazer ter presente, a meta última a que nos propomos. Só assim, na consciência profunda de cada um de que o que está em jogo é a sua felicidade última, e não uma qualquer variável contornável inviesadamente, é que me parece possível construir uma verdadeira educação. Aliás mesmo a um nível mais abrangente, e já extravasando para outros assuntos, parece-me que a Igreja tem falhado em transmitir a mensagem, na medida em que tem falhado em apontar o objectivo último dos ensinamentos de Deus, o que resulta numa visão popular extremamente destorcida e castradora da Igreja, como tenho a certeza que sabes.

3. Os medicamentos retro-virais são realmente caros e dispendiosos! Não podes atribuir a ausência desses medicamentos no seio das populações mais desfavorecidas a uma mera hipocrisia ocidental! Muitos dos próprios ocidentais não têm como pagar por esses tratamentos, e embora seja verdade que os monopólios nada ajudam a um valor real dos produtos, a verdade é que os medicamentos retro-virais no que diz respeito à SIDA são extremamente dispendiosos na medida em que o custo pela sua investigação é elevado, pois trata-se de "farmacologia de ponta". Se queres apontar de alguma forma o dedo aos ocidentais, porque não falar das fronteiras económicas na mais recatada clausura que são as da União Europeia e as dos Estados Unidos? Todo o esforço de desenvolvimento dos países africanos é barrado principalmente por este factor, nem na mais básica indústria agrícola, em que muitos países africanos têm um potencial imenso, há algum tipo de hipótese de alguma vez virem a praticar preços tão baixos como os que são permitidos aos agricultores europeus na nossa rídicula PAC.